26/03/2015

STRESS

Nem há quarenta e oito horas caiu o outro nos Alpes, com todo o folclore de notícias que faz-parte; e eis que enquanto estou à espera para embarcar no avião para Yangon ouve-se uma voz a dizer que o voo está atrasado.

"Due to the bad weather."

Deixo de fazer o que estava a fazer e endireito-me na cadeira, para ouvir melhor. Como se, endireitando-me, ouvisse melhor. Então a voz no altifalante repete o aviso:

"The Air Asia flight number 257 going to Yangon is delayed due to the bad weather."

E numa sincronização impecável, como que um eco transformado em luz: um relâmpago iluminou toda a sala de espera.

Cabuuuummm!, logo a seguir à luz. E antes do arrepio geral.

Eu normalmente não ligo nada a estas coisas. Mas isto hoje. Há qualquer coisa no ar. Apetece-me enviar umas mensagens, enquanto espero pelo embarque. Mas não quero dramatizar.

Na enorme zona de embarque, além dos avisos oficiais e da trovoada, não se ouve praticamente mais nada. Há vários voos atrasados, não é só o meu. E a cada trovoada que ecoa nos edifícios e nos espíritos, e a cada relâmpago que tanto ilumina como escurece, aprofunda-se o silêncio conformado de quem não sabe muito bem o que fazer. É esperar. Já passa. Já passa.

Curiosamente: não há uma única pessoa a "mandar vir" com os atrasos.

Já passa. Mas durante uma hora parecia que nunca-mais-passava; e tive de assistir, como cada uma das milhares de pessoas ali à volta, à tempestade a desabar sobre o aeroporto.

Já passa.

E passou. Ou mais-ou-menos. Quando finalmente convocaram os passageiros para o embarque, quando ainda caíam relâmpagos e trovões, as pessoas levantaram-se em silêncio, conformadas, que remédio, se-eles-dizem-que-já-passou-é-porque-já-passou... e lá foram (e lá fomos!), tem de ser.

Estarei a dramatizar?

Um bocadinho, talvez. Mas ainda agora, que já estou são e salvo no chão outra vez, estive a falar com um suíço que veio no mesmo voo e ele sentiu as mesmas coisas. E olhem que os suíços tendem a ser neutros.

O silêncio.

Do silêncio é que não me esqueço.

Entrámos no avião debaixo de chuva. Os relâmpagos pareciam não acalmar. Se atrasaram a partida antes, porque vamos sair agora? Cabuuuummm!

Sentei-me onde tinha de me sentar, ao meu lado um pai e um filho - um miúdo de nove ou dez anos, a brincar com o ipad. As formalidades do costume, aperta os cintos e desliga o telefone, o avião acelera na pista e lá vamos nós, escuro e silêncio a subir, a subir, a subir. Estes dois ao meu lado podem vir a ser os meus melhores amigos. Os meus últimos amigos. Que sensação estranha. Principalmente porque sei que, pelo menos o pai, deve estar a pensar o mesmo de mim. Já olhámos um para o outro mais do que uma vez, a sorrir timidamente e em silêncio. Eu-sei-que-tu-sabes-que-eu-sei. A absoluta/absurda formalidade no contacto, entre duas pessoas que, naquele instante, sabem que pode acabar tudo, hipoteticamente, daí a pouco.

Sim: estou a dramatizar. Mas há um bocadinho de nós que pensa sempre nestes dramas. Pode nem estar desperto, normalmente. Mas quando acorda, acorda. E, como disse, as notícias do outro voo nos Alpes. Há um bocadinho de mim, hoje, um bocadinho por muito pequeno que seja, que dramatiza.

O avião levanta voo. Luzes apagadas. Silêncio. Subimos. E os flashes sempre connosco, lá de fora iluminando filas inteiras de gente calada. E os abanões e os safanões, e a sensação estranha que não existe muito mais do que o espaço imediato à minha volta.

Parecia-me que o avião estava a encolher, era como se a certa altura só existissem os lugares à minha frente, três ou quatro filas, mais duas ou três atrás. E terminada a subida, quando o avião desacelerou e supostamente iam acender-se as luzes... manteve-se o breu. Lá fora luz e breu, mais a promessa de nuvens e pouco mais. Cá dentro: a silenciosa espera. E as luzes que não acendem.

Viajámos na incerteza desta escuridão uns quarenta e cinco minutos, pelo menos. A certa altura já não me interessava as sacudidelas, os poços de ar ou os abanões: só queria que as luzes acendessem!

Continuei a olhar para a janela, nem sei bem porquê, nem sei bem para onde, não se via nada além do que já se sabe.

E eis que de repente aparece a Lua. Sorridente, não sei se quatro crescente ou minguante, será que interessa, na altura nem pensei nisso, só reparei que a Lua tinha a forma de um sorriso.

Sorri.

Se já se vê a Lua quer dizer que saímos das nuvens, que saímos da tempest...

E: cabuuuummm! Nem tempo tive de terminar o raciocínio e já estávamos outra vez no meio da tempestade. Mais dois ou três safanões, mais um ou outro susto. Mas a Lua lá apareceu outra vez, e foi como se passássemos de uma estrada esburacada para uma auto-estrada, e finalmente as luzes acenderam-se e sei lá quantas pessoas respiraram fundo.

A sensação de segurança.

Mais importante que a segurança propriamente dita. A sensação.

Aterrámos em Yangon pouco depois. Meti-me imediatamente num taxi, cheguei mais cansado do que numa viagem de dez horas. E enquanto estava a fazer o check-in, oiço alguém atrás de mim dizer:

"Viemos no mesmo voo e estamos no mesmo hotel, mas cada um apanhou o seu taxi."

Viro-me para trás e troco umas palavras com o homem que me dirigiu a palavra. É suiço, desafia-me a air beber uma cerveja na taberna do outro lado da rua, quando estiver despachado. E quando finalmente fui ter com ele, foi como que um exorcismo, a troca de ideias e de sensações - que, curiosamente, partilhávamos acerca do voo 257.

Um bom dia para todos! :)

1 comentário:

Clara Amorim disse...

Oh my God!!! Ainda bem que acabou tudo em bem, graças à lua!!!